Neste documento, coloco em questão uma tendência observada no pensamento ocidental de universalizar a humanidade e as sociedades sob um estado absoluto de tempo, espaço e matéria, com o foco em uma compreensão particular do 'vazio'. Ao fazer isso, a própria ideia de extinção é projetada em um tempo que não é nem aqui nem agora. Além disso, uma consequência neutra é assumida entre a humanidade, apagando diferenças entre narrativas e justificando traços coloniais baseados em uma ideia ocidental de espaços vazios. Como argumenta a física quântica e filósofa Karen Barad:

"Colocar o apocalipse diante de nós, pensar que ele reside apenas em nossa imaginação, que somos assombrados por sua possibilidade ainda não realizada, é reiterar não apenas uma narração muito particular do tempo e da história, mas um "nós" particularmente privilegiado, cúmplice de regimes de apagamento." [i] [tradução livre pelo autor]

O aspecto enganoso desta perspectiva neutra ocorre quando se supõe ter um certo "nós" privilegiado como um modelo padrão no qual os "outros" devem se relacionar. No caso da extinção, ela vem à tona quando é colocada em um futuro imaginário, incluindo todos os seres humanos ao mesmo tempo, ao invés de reconhecer os estados e dinâmicas diferenciais em nossa sociedade contemporânea (por exemplo, a extinção dos povos indígenas, línguas e culturas como resultado da colonização e do empoderamento dos sistemas capitalistas). Minha perspectiva é que a dinâmica em curso na sociedade pode ser reconhecida e confrontada no campo das artes cênicas (e vice-versa). Assim, a busca pela homogeneidade é bastante problemática. Esta característica potencializa a neutralidade dos estados performativos e construções narrativas, que podem ignorar perigosamente as diferenças entre os performers (origem étnica, background técnico, cultural, etc.), bem como em relação aos lugares onde a performance acontece.

Vou desenvolver este argumento através das lentes da Teoria Quântica de Campo, apoiada por estudos pós-humanistas e descolonizais, e sua tentativa de quebrar um entendimento tradicional do 'vazio'. Coloco em questão a própria definição de ‘Antropocena’ e a relação entre a humanidade e o meio ambiente em direção a um nível metafísico de extinção e suas influências coloniais. Quais são as implicações sublinhadas no discurso da neutralidade? Como podemos emancipar o indivíduo do universal? Quando é que as artes cênicas se tornam políticas? Minha pergunta de pesquisa é elaborada da seguinte forma: Como as artes cênicas podem aplicar a desconstrução do tempo, do espaço, da matéria e do vazio, oferecida pela Teoria Quântica do Campo, como estratégias dramatúrgicas para enfrentar a crise climática?

 

[i] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 103)

[versão original] “To place the apocalypse before us, to think that it lies only in our imagination, that we are haunted by its possibility still unrealized, is to reiterate not only a very particular telling of time and history, but a particularly privileged “we,” complicit in regimes of erasure.”