Sobre identidades universais e particulares

Em uma palestra para o Instituto KW de Arte Contemporânea em Berlim, Slavoj Žižek problematizou a relação dialética entre universal e particular. Ele aponta a forma comum de pensar na qual elementos particulares estão lutando entre si, enquanto a universalidade seria o espaço desta luta. Para ele, o primeiro antagonismo não é entre momentos particulares dentro da universalidade, mas entre a universalidade e suas formas particulares. Assim, sua pergunta é: "E se a universalidade for um nome de um certo antagonismo e formas particulares são tentativas de... lidar com este antagonismo?". Desta forma, a multiplicidade de formas individuais é concebida como uma série de tentativas de resolver tensões que, por sua vez, definirão o universal. Seguindo seu pensamento, a universalidade só pode ser definida retroativamente.[i]

Émilie Dionne em “The politics of becoming: breaking the identity ground of cyborgs/posthumans and humans” argumenta que as identidades individuais, são "sempre dinâmicas e construídas tanto na mistura de corpo e mente, na encarnação do contexto/ambiente, como também através de interações com outros atuantes e ambientes". Desta forma, ela aponta a direção enganosa da compreensão da identidade como a síntese do próprio passado, e não como uma trajetória.[ii]  Acrescentando as lentes de Žižek na interpretação de Dionne, não há uma compreensão universal de identidades particulares, uma vez que é uma tentativa constante de resolver a tensão através de interações com os outros, o eu e o meio ambiente. Portanto, pode-se concluir que a identidade só pode ser definida retroativamente.

Da mesma forma que Žižek, Dionne busca uma distância entre o sujeito e o universal. Ela questiona a compreensão totalizada e essencializada das identidades quando colocadas como metáforas dos mitos da natureza, por exemplo, quando a definição de mulher está se fundindo com a combinação da natureza como mãe, deusa ou virgem, que para ela, longe de autonomizar o 'sujeito', a confina a um lugar específico, com funções específicas.[iii]  Neste exemplo, a essência universalizada de uma mulher define o que cada mulher em particular deve ser. Ela se propõe a explorar o que existe fora destes sistemas; ela está interessada no que poderia emergir de diferentes conjuntos.

Há uma linha tênue onde o "universal" é lavado da subjetividade, ficando em seu lugar a ausência de identidades. Assim como a definição de um futuro pré-estabelecido para todos da mesma forma (lido, futuro e não-futuro). Este caminho se manifesta ambiguamente, de acordo com uma compreensão tradicional de tempo, espaço e matéria como estados absolutos. Isto induz facilmente a uma posição política de totalidade, onde a distância entre particular e universal é neutralizada, apagada, criando uma mera ilusão de igualdade entre suas formas particulares.

 

[i] (Žižek, Lecture delivered at KW Institute for Contemporary Art, Berlin (Germany) on December 16th 2011., 2011)

 

[ii] (Dionne, 2018, p. 7)

 

[iii] (Dionne, 2018, p. 9)