Extinção nas artes cênicas como prática política

A importância de descolonizar a Extinção dentro das artes cênicas é elevar a capacidade de resposta para diferentes possibilidades de prever futuros, e criar uma consciência do público para evitar que as piores possibilidades sejam realizadas. Em que circunstâncias é necessário falar das artes cênicas como políticas? A seguir, vou traçar um quadro contemporâneo das artes cênicas com perspectiva política, combinando com uma ideia de justiça e responsabilidade em relação ao termo neutralidade e extinção.

Bojana Kunst no artigo “The troubles with temporality” argumenta que quando se questiona a política da performance, também se ultrapassa os limites do pensamento sobre a própria política.[i]  Kunst divide o aspecto temporal da performance de sua materialidade, resultando em um potencial político abstrato e imaterial. A força política da performance está intimamente relacionada com a temporalidade do presente - que, em sua opinião, é entendida como um rearranjo micro político de diferentes forças.

Um problema particular que ela aponta são as consequências da generalização do gesto temporal da performance e a universalização da força política da performance, que coloca a performance, ou melhor, a restringe, a um contexto macro político.[ii]  Kunst argumenta que os aspectos macro da performance devem existir como resultado da multiplicidade de aspectos micropolíticos e não o contrário.

Como revisado ao longo deste artigo, através da Teoria Quântica de Campo, podemos chegar além da compreensão do micro como indivíduos, e do macro como ambiente e o vazio, mas sim incluindo todas as im/possibilidades infinitas dentro de suas virtualidades e estados indeterminados de intra-ações. No entanto, o discurso da extinção é uma ameaça na abordagem tradicional tanto do tempo quanto do ser - algo que deixa de existir (no tempo e no espaço) e deixa de ser (matéria e significado).

A compreensão de Bojana do potencial temporal da performance como um âmbito micropolítico é um ato subversivo.[iii] A troca potencial entre o sujeito e a performance destaca sua performatividade exatamente no momento de seus envolvimentos com o ambiente. O que ela chama de "gesto de performance" não está relacionado apenas ao contexto geopolítico, mas sim à contingência de diferentes gestos em um determinado momento temporal.[iv]  Desta forma, a performance deve ser entendida dentro de suas dimensões de intra-ações de tempo, espaço e subjetividade. Ela acrescenta:

"performance hoje está lutando contra uma cadeia de apreensões fantasmagóricas que muitas vezes transformam a performance como prática material na contínua abstração de procedimentos, dividindo-a de sua dinâmica espacial, situacional e micropolítica, e abstraindo-a de sua encarnação contraditória e sempre parcial."[v]

Como podemos emancipar a política de performance, para ser entendida dentro de uma escala global? Para Kunst, isso seria de "abstrair a performance da singular conjunção de forças micropolíticas"[vi], em outras palavras, deixando de lado sua materialidade e ruptura temporal. Quando a performance se torna um ato político de emancipação, ela ameaça os fundamentos das realizações emancipatórias. Kunst argumenta que nossa sociedade é continuamente privada de sua substância, portanto "um ato de desfazer está em ação e o Evento...é negado retroativamente."[vii]  A compreensão do desempenho de Kunst traz seus princípios em direção a uma constante ativa(ism) de ongoingness.

André Lepecki, na introdução de seu livro “Dance: documents of contemporary art,” relaciona-se com a ongoingness da performance argumentando que junto com o momento performativo estamos "descobrindo como se mover nesta contemporaneidade; e de entender como, movendo (mesmo que parado) pode-se criar uma nova coreografia para o social."[viii] Ao mover, os aspectos sociais são revelados, assim, enquanto as questões coreopolíticas permanecerem relevantes, a dança será um sistema crucial para o pensamento crítico dentro do regime estético da arte contemporânea.[ix] 

Sob o que ele chama de "projetos político-estéticos", mais do que uma metáfora para a política, pode-se entendê-la como ativação de práticas políticas através do que ele chama de "corpo social" e a "coreografia para o social." Para Lepecki e Kunst, o intercâmbio entre a sociedade e a arte destaca o estado de ongoingness da performance e sua dinâmica política.

A reprodução da estética como representação da sociedade é ao mesmo tempo um reflexo crítico do presente, uma compreensão política do passado e uma projeção política do futuro. O termo "coreografia para o social"[x] de Lepecki não só tem o papel de conscientizar e abordar questões sobre as situações contemporâneas, mas também tem um valor entre o individual e o coletivo.

A contemporaneidade, para Lepecki, é uma compreensão do presente como uma forma de entender o passado, com o perigo de distanciar a humanidade da culpa de suas próprias ações, expondo como a sociedade distorce a moral dentro de um sistema de opressão e hegemonia. O que Lepecki reconhece como uma compreensão da contemporaneidade, é o que Karen Barad sugeriria exatamente como uma "não contemporaneidade" do presente, como uma tentativa de fazer justiça, de trazer para o presente a responsabilidade de revisitar o passado e de assumir a indeterminação de suas narrativas atuais:

"...O passado nunca está fechado, nunca está terminado de uma vez por todas, mas não há como voltar atrás, estabelecendo o tempo como um direito, colocando o mundo de volta em seu eixo. Não há apagamento [das violações do passado] finalmente. Os vestígios de todas as reconfigurações estão escritos nas materializações [interativas] envolvidas do que foi/é/está para ser. O tempo não pode ser consertado. Abordar o passado (e o futuro), falar com fantasmas, não é entreter ou reconstruir alguma narrativa da maneira como foi, mas responder, ser responsável, assumir responsabilidade por aquilo que herdamos (do passado e do futuro), para as relações enredadas de herança que "nós" somos, para reconhecer e responder à não contemporaneidade do presente, para se colocar em risco, para se arriscar a si mesmo (que nunca é um ou a si mesmo), para se abrir à indeterminação no movimento em direção ao que está por vir. ...Somente nesta contínua responsabilidade para com o outro enredado... há a possibilidade de justiça para chegar."[xi]  - Karen Barad (ênfase da autora)

No teatro, é comum abordar a chamada 'máscara neutra', ou 'estado neutro'. Ao longo da história do teatro e das artes cênicas, há uma hierarquia sobre as técnicas e a estética esperada no palco. Minha sugestão é que as artes cênicas entrelaçam as lutas sócio-políticas sob a sociedade em que elas existem. Portanto, a neutralidade como Estado invoca a preocupação de Barad com a renormalização na qual se estabelece a ideia da subtração do infinito, lida também, uma tentativa de controlar as diversidades e possibilidades.[xii] 

 

A justiça, como sugere Karen Barad, é uma "prática encarnada de traçar os enredos das histórias violentas...na face das práticas coloniais de apagamento e de anulação..."[xiii]  Para ela, o colonialismo encontra sua justificação em termos do vazio, e a consequente ausência de responsabilidade.[xiv]  De fato, cada indivíduo, como argumenta Barad, é "composto de todas as histórias possíveis de intra-ações virtuais com todos os outros... não existe tal coisa como um indivíduo discreto com sua própria lista de propriedades."[xv] Ao argumentar isso, ela perturba o núcleo da dependência ocidental do individualismo e dos modos capitalistas de produção e exploração[xvi] e, de fato, exclui constitutivamente o 'outro' que, como sugere a Teoria Quântica de Campo, sempre esteve dentro de cada um.[xvii]

 

[i] (Kunst, 2015, p. 1)

[ii] (Kunst, 2015, p. 2)

 

[iii] (Kunst, 2015, p. 3)

 

[iv] (Kunst, 2015, p. 8)

 

[v] (Kunst, 2015, p. 6)

[versão original] “[p]erformance today is fighting against a chain of ghostly apprehensions that often transform the performance as a material practice into the continuous abstraction of procedures, dividing it from its spatial, situational, and micropolitical dynamic, and abstracting it from its contradictory and always partial embodiment.”

 

[vi] (Kunst, 2015, p. 3)

 

[vii] (Kunst, 2015, p. 7)

 

[viii] (Lepecki, 2012, p. 22)

 

[ix] (Lepecki, 2012, p. 21)

 

[x] (Lepecki, 2012, p. 22)

 

[xi] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 105) and (Barad, Quantum entanglements and hauntological relations of inheritance: Dis/continuities, SpaceTime enfoldings, and justice-to-come, 2010, pp. 264-265)

[versão original]“…The past is never closed, never finished once and for all, but there is no taking back, setting time aright, putting the world back on its axis. There is no erasure [of past violences] finally. The trace of all reconfigurings are written into the [iterative] enfolded materialisations of what was/is/to-come. Time can`t be fixed. To address the past (and the future), to speak with ghosts, is not to entertain or reconstruct some narrative of the way it was, but to respond, to be responsible, to take responsibility for that which we inherit (from the past and the future), for the entangled relationalities of inheritance that ‘we’ are, to acknowledge and be responsive to the noncontemporaneity of the present, to put oneself at risk, to risk oneself (which is never one or self), to open oneself up to indeterminacy in moving towards what is to come. …Only in this ongoing responsibility to the entangled other…is there the possibility of justice-to-come.”  - Karen Barad (emphasis by the author)

 

[xii] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 95)

 

[xiii] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 104)

[versão original]“embodied practice of tracing the entanglements of violent histories…[i]n the face of colonial practices of erasure and a-void-ance…”

 

[xiv] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 106)

 

[xv] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 107)

[versão original] is “made up of all possible histories of virtual intra-actions with all others…there is no such thing as a discrete individual with its own roster of properties.”

 

[xvi] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 107)

 

[xvii] (Barad, After the end of the world: Entangled nuclear colonialism, matters of force, and the material force of justice, 2020, p. 108)