O corpo, sua dis/continuidade espaço-temporal, e a percepção de presença, vazio e realidade têm sido o foco do discurso da performance contemporânea (Derrida, 1994; Greiner, 2005 e 2010; Gomez-Peña, 2015; Kunst, 2011 e 2015; Lepecki, 2006, 2012 e 2016; Sampaio & Simão, 2018; Miranda, 2020). É essencial destacar como a estética é comumente definida através de uma perspectiva Euro-Americana ao se fazer a ponte para as artes cênicas. Ela é constantemente (re)normalizada em relação ao tempo (baseada no presente Euro-Americano) e ao espaço (imposta aos países não ocidentais), e molda as noções do corpo (Bakare-Yusuf, 2003; Butler, 1988; Haraway, 1988; Harding, 1995 & 2004; Grosfoguel, 2012; Mignolo & Vazquez, 2013; Miranda, 2020; Ribeiro, 2019; Barad, 2020). O problema começa quando este modelo imposto é considerado neutro, marginalizando/eliminando outras identidades e formas de expressão. (Oyèyewúmi, 1997; Mignolo, 2003; Spivak, 1988 e 2012, Garcia-Olp, 2018). Assim, realizei esta pesquisa através de uma leitura na qual performance e corpo são entendidos como fenômenos.

 

Karen Barad reconhece que entidades, agências e eventos distintos emergem de/através de suas intra-ações. Além disso, ela sugere que a responsabilidade de desvendar a linha entre 'eu' e o 'outro', 'passado', 'presente' e 'futuro', 'aqui' e 'agora', e 'causa' e 'efeito' é tomada ao não vê-las como o entrelaçamento de entidades separadas, mas em vez disso colocá-las em relação umas às outras.[1]  Esta relacionalidade é baseada no que Donna J. Haraway uma vez chamou de 'conhecimento situado'. Dentro das teorias do ponto de vista feminista, Haraway reconhece a importância de identificar diferentes contextos e implicações político-epistemológicas-éticas, destacando as multiplicidades - a chamada pluriversalidade - em nossa existência.[2]

Seguindo este entendimento, não é possível nem um modelo nem uma definição universalizada do corpo. Segundo a Teoria Quântica de Campo, a matéria (corpo) é compreendida em suas infinitas camadas de im/possibilidades e dinâmica in/determinada do nada, na qual o nada é o dinamismo da in/determinação do ser, da não/presença, da não/existência do tempo.[3] A noção de intra-ações consiste em "[um] conjunto infinito de possibilidades ou soma infinita de histórias." Além disso, ela "implica uma partícula se tocando, e depois aquela se tocando, e transformando, e tocando outras partículas que compõem o vácuo, e assim por diante, ad infinitum."[4]

O ciclo em que a matéria se toca, se transforma e toca outras partículas, é o que Eduardo Miranda ilustra como um corpo em constante mudança de pele.[5] Ele propõe uma leitura na qual a pessoa só pode ser definida por suas próprias experiências, marcadas pelo tempo, pelo espaço e pela memória. O que Miranda tratará como 'corpo-território' é a reafirmação de construções sócio-históricas, bagagem cultural e experiências relativas ao tempo e ao espaço. O corpo atua simultaneamente em várias espacialidades, afetado por diferentes forças dentro do que ele chama de "território de passagem."[6]

A constante mudança da pele e dos territórios infinitos do corpo é o que Barad estabelece como o momento do "retorno" - um toque do eu e do outro, que perturba as concepções dominantes de espaço-tempo, matéria, causalidade e nada.[7] Ele contrapõe a física Newtoniana, uma parte formativa e capacitadora da modernidade Americano-Européia que busca a "renormalização" da matéria para subtrair todas as infinitas possibilidades, pressupondo uma "essência neutra comum" da existência.[8] Todos estes estudiosos nos ensinam que existe um número infinito de possibilidades, e o momento de auto-intra-ações representa o encontro com a alteridade infinita do eu. Assim, contestar a 'renormalização' e a neutralização de um modelo estético, imposto pelo Americo-Eurocentrismo e sua contemporaneidade, é fundamental para perceber o corpo e a performance como fenômenos.

 

[1] (Barad 2010, pp. 264-6)

[2] (Haraway 1988)

[3] Karen Barad uma vez explicou seu uso do '/' (como exemplo de im/possibilidades), pelo qual ela significa mais do que apenas ambos (possibilidades e impossibilidades), mas sim que uma superposição representa uma indeterminação entre os dois. Neste trabalho, vou usá-la de forma semelhante, diferenciando-me de seus termos usando aspas.

[4] (Barad 2010, 2017 and 2020)

[5] Esta expressão é uma referência ao Orixá Oxumaré Afro-Brasileiro. (Miranda 2020)

[6] (Barad 2017, p. 81)

[7] (Kunst 2015, p. 6)

[8]  (Barad 2019 and 2020)