Sobre singularidades temporais e o fim da contemporâneidade

"A performance hoje está lutando contra uma cadeia de apreensões fantasmagóricas que freqüentemente transformam a performance como uma prática material na contínua abstração de procedimentos, dividindo-a de sua dinâmica espacial, situacional e micropolítica, e abstraindo-a de sua encarnação contraditória e sempre parcial."[1] [tradução livre]

Elaborado atravéz do conceito de 'deseventualização' do Žižek, no artigo "Os Problemas com a Temporalidade", Bojana Kunst enquadra a performance mostrando como sua materialidade é constitutiva da temporalidade de seu próprio evento. O fator enganoso, como ela argumenta, é quando a performance se restringe a seu contexto macropolítico, como histórias emancipatórias universalizadas, em vez de fortalecidas por seus aspectos micropolíticos (como muitas forças sensoriais, espaciais e temporais). Kunst percebe um dilema temporal da performance quando usa as noções de presente como sua força política enquanto é assombrada por seu passado através de seu próprio processo. Para ela, a temporalidade da performance não deve ser universalizada, mas abordada em sua "singularidade temporal´."[2]

Para aprofundar este dilema, devemos não apenas desvendar nossa compreensão da temporalidade, mas também desfazer a própria contemporaneidade. Como uma tentativa de trazer para o presente a responsabilidade de revisitar o passado e assumir a indeterminação de suas narrativas atuais, Karen Barad afirma a "não contemporaneidade do presente", como ela explica:

"O passado nunca está fechado, nunca está terminado de uma vez por todas, mas não há como voltar atrás, estabelecendo o tempo certo, colocando o mundo de volta em seu eixo. Não há apagamento [da violência do passado] finalmente. Os vestígios de todas as reconfigurações estão escritos nas materializações [iterativas] envolvidas do que foi/é/está por vir. O tempo não pode ser consertado. Abordar o passado (e o futuro), falar com fantasmas não é entreter ou reconstruir alguma narrativa da maneira como foi, mas responder, ser responsável, assumir responsabilidade por aquilo que herdamos (do passado e do futuro), pelas relações enredadas de herança que "nós" somos, para reconhecer e responder à não contemporaneidade do presente, para se colocar em risco, para se arriscar a si mesmo (que nunca é apenas uma nem o eu), para se abrir à indeterminação no movimento em direção ao que está por vir ... Somente nesta responsabilidade contínua para com o outro enredado...existe a possibilidade de justiça para chegar. ”[3]  (ênfase do autor)

O modo como geralmente entendemos "contemporâneo" perpetua a política do tempo da modernidade. Ela reproduz a diferença colonial ao exercer poder sobre a definição e regulamentação do "agora", como um padrão estético, criando uma separação entre aqueles que pertencem ao agora da contemporaneidade e aqueles que estão relegados a seu passado. De uma perspectiva descolonial, Rolando Vázquez nos lembra que nem toda estética é considerada contemporânea. Assim, quem narra a contemporaneidade detém o poder de colonizar as condições para pertencer ao "agora" e quais estéticas são tomadas como "outras". A contemporaneidade, como sugere Vázquez, realiza dois movimentos de apagamento, um de classificação e o outro de exclusão. Em outras palavras, o contemporâneo só pode existir através da produção simultânea de sua alteridade. Como resposta à contemporaneidade centrada no ocidente, Vázquez traz à tona um movimento não ocidentalizado que trabalha a negação da contemporaneidade, não querendo ser incluído ou reconhecido como tal, buscando emancipação e autonomia em relação aos padrões estéticos e à regulação do tempo, espaço e corpo, que é, em suas palavras, "o fim da contemporaneidade".[4]

[1] (Kunst 2015, p. 6)

[2]  (Ibid., p. 9)

[3]  (Barad 2020, p. 105) and (Barad 2010, pp. 264-265)

[4]  (Vázquez 2020 pp. 57-62)